A China solicitou formalmente a participação nas consultas abertas na Organização Mundial do Comércio (OMC) pelo governo brasileiro contra as tarifas adicionais de até 37,5% impostas pelos Estados Unidos durante a gestão de Donald Trump. A medida é vista como passo estratégico para reforçar os esforços do Brasil diante da controvérsia comercial e amplia a relevância internacional do caso.
Interesse chinês em jogo
Em documento protocolado na OMC, a delegação chinesa declarou ter "interesse comercial substancial nessas consultas", argumentando que as investigações conduzidas pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) contra exportações brasileiras também afetam as condições de concorrência dos produtos chineses no mercado norte-americano. Pequim ressaltou que as tarifas aplicadas pelos Estados Unidos comprometem todas as exportações do país, exceto aquelas previstas em isenções.
Conforme as regras da OMC, cabe aos principais envolvidos — Brasil e Estados Unidos — autorizar que a China participe como terceiro membro nas negociações. Esse movimento reflete preocupação chinesa com investigações baseadas em alegações de práticas comerciais desleais e trabalho forçado, temas que também repercutem diretamente no comércio entre China e EUA.
Controvérsia bilateral e tensão comercial
O governo brasileiro, sob a liderança de Luiz Inácio Lula da Silva, acionou a OMC em julho, contestando a validade das sobretaxas norte-americanas. Segundo o Brasil, as medidas desrespeitam princípios do comércio internacional e prejudicam a isonomia entre os países membros. Especificamente, o Brasil questiona uma tarifa adicional de 25% sobre produtos nacionais, justificada por supostas práticas desleais, e outra de 12,5%, baseada em acusação de falha no combate à importação de itens produzidos com trabalho forçado.
Apesar de a atual relação diplomática entre Washington e Brasília ser marcada por tensão, o fato de os EUA aceitarem participar da etapa de consultas na OMC é visto como avanço inicial. No entanto, há ceticismo quanto à obtenção de acordos práticos diante da paralisia do sistema multilateral de resolução de disputas e do impasse institucional que persiste desde 2019, quando o governo Trump bloqueou a composição do órgão de apelação da OMC.
Trâmites e próximos passos da disputa
O pedido de consultas é apenas a primeira etapa do processo na OMC. Caso as negociações não resultem em consenso em até 60 dias, Brasil poderá solicitar a formação de um painel arbitral. Esse painel, composto por especialistas, é responsável por analisar argumentos das partes e emitir um relatório, que pode levar meses — ou mesmo anos — para ser finalizado, especialmente em disputas de maior complexidade.
Apesar da dificuldade na resolução, recorrer à OMC é considerado pelo governo brasileiro um gesto relevante, ao reafirmar o compromisso do país com regras internacionais de comércio. Do lado chinês, apoiar o Brasil também serve para fortalecer a defesa do sistema multilateral frente ao protecionismo crescente.
Impasse internacional
A paralisação do órgão de apelação cria dificuldades para qualquer decisão definitiva, já que países que discordem de relatórios de painel podem recorrer e, na ausência de composição plena, manter disputas sem solução concreta.
O desdobramento da participação chinesa e a efetividade das consultas entre Brasil e EUA ainda permanecem incertos. O tema segue no centro do debate sobre regras comerciais globais e poderá influenciar futuras negociações multilaterais.
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