O ex-diretor do Instituto Butantan e atual cientista-chefe da Sinovac no Brasil, Dimas Covas, revelou que a farmacêutica chinesa pretende investir até US$ 100 milhões em uma plataforma nacional de desenvolvimento de vacinas. Apesar da disposição para injetar capital, Covas alerta que o país ainda não está em condições adequadas para receber esse aporte, devido à defasagem em infraestrutura e qualificação de mão de obra especializada.
Desafios para a produção nacional de vacinas
Dimas Covas explicou que, embora existam recursos disponíveis e parcerias em andamento, como com o Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar) para transferência de tecnologias e produção de vacinas para varicela e raiva humana, o Brasil ainda enfrenta entraves estruturais. Segundo o cientista, a ausência de uma política industrial eficaz e a dependência de insumos importados, principalmente da Ásia, deixam o país vulnerável diante de emergências sanitárias.
Além da falta de estrutura, Covas destacou a necessidade de formação de profissionais altamente capacitados, como engenheiros e técnicos aptos a operar em indústrias biofarmacêuticas modernas. Citando exemplos de países asiáticos como China e Coreia do Sul, ele reforça que o desenvolvimento tecnológico passa por investir primeiro nas pessoas, para só então viabilizar a construção de fábricas locais com autonomia.
Reflexos da pandemia e enfrentamento do movimento antivacinas
Ao relembrar o papel decisivo do Butantan durante a pandemia de Covid-19, Covas lamentou que o impulso inicial, com a chegada da Coronavac ao Brasil, não tenha se convertido em uma plataforma nacional definitiva de imunizantes. Ele criticou ainda o fortalecimento do movimento antivacinas, que, segundo ele, dificulta a adesão da população e prejudica a cobertura vacinal em todo o país.
Outro ponto sensível é a descontinuação de políticas públicas após o arrefecimento da pandemia. Mesmo com exemplos positivos de colaboração internacional, como as parcerias com a Fundação Oswaldo Cruz e negociações de transferência de tecnologia, Covas aponta que iniciativas promissoras acabaram não avançando – inclusive por escolhas políticas e perda de continuidade em compras governamentais.
Autonomia científica ainda distante
O ex-diretor do Butantan ressaltou que o Brasil ocupa posição de destaque em produção acadêmica, mas ainda engatinha quanto à capacidade de converter conhecimento científico em inovação produtiva. Atualmente, o país encontra-se na 13ª colocação mundial em artigos científicos, porém apenas no 52º lugar em capacidade de inovação, o que reflete o distanciamento entre pesquisa e aplicação industrial com impacto direto na saúde pública.
Covas conclui que, apesar da disposição internacional para investir no Brasil, a mudança efetiva depende de políticas públicas contínuas, treinamento técnico, fortalecimento institucional e superação do negacionismo científico. Para ele, enfrentar esses desafios é fundamental para garantir a autonomia e a segurança da população em futuras crises sanitárias.
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