Um vídeo recente do Departamento de Estado dos Estados Unidos provoca reflexões sobre a influência americana na América Latina, afirmando que o domínio dos EUA sobre o Hemisfério Ocidental "nunca mais será questionado". Essa afirmação remete à Doutrina Monroe e reabre debates sobre a postura dos EUA na região. O professor de Relações Internacionais da ESPM, Gunther Rudzit, comentou sobre essa situação durante sua participação no programa Hora H.
Rudzit ressaltou que a análise do cenário atual à luz de doutrinas do século XIX é um equívoco. Para ele, "tentar entender a realidade de hoje com o software do século passado não nos levará a lugar algum". Ele destacou que a expectativa de que os EUA cumpram as diretrizes da Convenção de Viena é uma visão ultrapassada. O professor afirmou: "O governo americano utiliza as regras internacionais de forma seletiva, ignorando-as quando não são convenientes".
Um exemplo citado por Rudzit é o Tribunal Penal Internacional. Segundo ele, as regras são invocadas apenas quando servem para pressionar adversários, enquanto são ignoradas em outras situações. O interesse dos EUA na América Latina, conforme apontado pelo professor, vai além de uma retórica diplomática. O objetivo real é impedir a China de dominar setores estratégicos como portos, energia e inteligência artificial.
"Os EUA utilizarão todos os recursos disponíveis para pressionar os governos da região a se afastarem da China e se aproximarem de Washington", analisou Rudzit. Ele alerta que essa dinâmica pode isolar ainda mais o Brasil. O professor observou que o país já tem perdido sua posição de liderança na América Latina, um fenômeno que, segundo ele, é resultado de erros na política externa.
Rudzit observa que a pressão americana sobre o Brasil deve aumentar, especialmente durante o período eleitoral. Ele enfatizou que a tentativa de ingerência dos EUA tende a se intensificar até o segundo turno das eleições, e que isso pode incluir ações de desinformação.
Em sua análise, o professor defende que o Brasil não deve se ver obrigado a escolher entre Washington e Pequim. Em vez disso, ele sugere a construção de relacionamentos diversificados com várias potências médias em áreas como economia e tecnologia. "Ver os EUA como vilões e a China como mocinhos é uma visão distorcida da realidade internacional", concluiu Rudzit, enfatizando que os países operam com interesses e não com amizades.
Assim, a reflexão proposta por Gunther Rudzit é clara: o Brasil precisa repensar sua estratégia externa, considerando a complexidade das relações internacionais atuais e a necessidade de uma abordagem multifacetada.


