O Instituto Moreira Salles (IMS) recebe, até 23 de agosto, a exposição "Zumví Arquivo Afro Fotográfico", que revisita a trajetória de 35 anos do coletivo fundado em Salvador, na Bahia, responsável por um dos maiores acervos fotográficos sobre a vida negra no Brasil. Com cerca de 400 imagens selecionadas de um acervo com 50 mil registros, a mostra destaca a importância do Zumví como guardião da memória e da experiência negra sob uma perspectiva interna, sensível e engajada.
O nascimento do Zumví e a visão por trás das lentes
O fotógrafo Lázaro Roberto, nascido na periferia de Salvador, entendeu cedo que registrar imagens era também uma forma de posicionamento social e político. Ao lado de Aldemar Marques e Raimundo Monteiro, ele criou o coletivo Zumví em 1990, com o propósito de documentar a vida cotidiana e as manifestações culturais e políticas da população negra baiana — sempre ressaltando o olhar de quem vivencia essa realidade.
Para conquistar a confiança das pessoas fotografadas, Lázaro passou a frequentar por um ano a Feira de São Joaquim, chegando a se integrar aos feirantes e demonstrando interesse genuíno por suas histórias. Esta aproximação proporcionou imagens marcadas pela empatia e pertencimento, contrapondo o olhar distante e por vezes exotizante de outros fotógrafos.
Cultura, movimento e resistência: o acervo como quilombo visual
O acervo do Zumví foi batizado de "quilombo visual", conceito que traduz a ideia de refúgio e de comunidade construída por quem busca proteger e contar suas próprias histórias. Nos anos 1990, período de fundação do coletivo, era raro encontrar acervos construídos e preservados por pessoas negras. O nome Zumví nasce da junção das palavras "zoom" e "vi", simbolizando esse olhar atento e testemunhal a partir de dentro.
Entre os momentos históricos registrados pelo grupo destacam-se cenas de lutas do movimento negro, como o protesto do Centenário da Abolição, em 1988, a passagem de Nelson Mandela por Salvador, em 1991, e a celebração dos 300 anos de Zumbi dos Palmares. Também há registros do cotidiano periférico, assembleias sindicais e festas populares, além dos tradicionais blocos afro como Ilê Aiyê e Filhos de Gandhy.
O impacto da produção fotográfica e a transmissão de memória
Lázaro Roberto começou sua trajetória fotográfica no ambiente religioso e, depois, atuando na divulgação de movimentos sociais em Salvador. O fotógrafo, filho de lavadeira e estivador, sempre buscou usar a imagem como forma de equilibrar injustiças e promover orgulho e dignidade à população negra. Uma de suas respostas ao apagamento de negritude em produtos midiáticos foi a criação de cartões comemorativos e capas de cadernos mostrando pessoas negras em cenas de afeto.
O coletivo Zumví, ao longo de 35 anos, reuniu o trabalho de sete fotógrafos negros. Mesmo após a saída de alguns fundadores, Lázaro permaneceu à frente do acervo, garantindo que a memória coletiva da população negra baiana fosse registrada e resgatada pelas próprias mãos.
Legado e reconhecimento
A história e o acervo do Zumví são essenciais não apenas para entender a evolução da fotografia no Brasil, mas também para aprofundar a compreensão sobre os movimentos sociais, culturais e políticos negros. A exposição no IMS é um marco na valorização da memória afro-brasileira e reforça a urgência em preservar acervos construídos por grupos historicamente marginalizados.
A mostra é um convite ao público para conhecer e valorizar olhares que constroem a história do Brasil em primeira pessoa.
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