A divulgação do relatório final da Polícia Federal sobre o acidente aéreo da Voepass, ocorrido em agosto de 2024 em Vinhedo (SP), reacendeu a dor e o clamor por justiça entre os familiares das 62 vítimas da tragédia. Na última quinta-feira (6), representantes das famílias participaram da apresentação do documento na Superintendência da Polícia Federal, em São Paulo, realizando um desabafo contundente contra a companhia aérea e as falhas estruturais no sistema de fiscalização.

Relatório da Polícia Federal e indiciamentos

O relatório da Polícia Federal resultou no indiciamento de 16 pessoas por envolvimento no acidente do voo 2283, a maioria pelo crime de atentado à segurança no transporte aéreo. A investigação policial aponta que funcionários, diretores e comandantes da Voepass mantinham uma cultura de não reportar falhas técnicas, inclusive envolvendo o sistema de degelo do ATR, que não funcionou no fatídico voo entre Cascavel (PR) e Guarulhos (SP). O descaso foi entendido como um grave risco à segurança pública.

Entre as medidas cautelares, os 16 indiciados estão proibidos de sair do país. O inquérito agora será analisado pelo Ministério Público Federal (MPF), que pode solicitar a prisão preventiva dos investigados e apresentar denúncia formal à Justiça.

Vozes das famílias: "Não foi acidente, foi crime"

Fátima Albuquerque, presidente da Associação de Familiares das Vítimas da Voepass, perdeu a filha de 34 anos naquele voo. Emocionada, ela reforça que "mataram a minha filha" e critica veementemente o modus operandi da empresa, ressaltando que os responsáveis "sabiam que estavam fazendo gambiarra" e "burlando a fiscalização". Segundo Fátima, a esperança agora é de que a Justiça seja feita e o caso sirva de exemplo para evitar novas tragédias.

Para a advogada Bianca Feller, sobrinha de uma das vítimas e representante das famílias, o caso vai além de uma fatalidade: "Foi um crime aéreo, não um simples acidente. Tudo poderia ter sido evitado se as condições mínimas de segurança fossem respeitadas pela empresa." Feller avalia que a divulgação do relatório marca "o fechamento de um ciclo", mas o início de uma nova luta judicial para garantir punição efetiva aos envolvidos.

Adriana Ibba, mãe da vítima mais jovem – uma criança de apenas 3 anos –, revelou indignação com o nível de irregularidades descobertas nas investigações, ressaltando que se surpreendeu com a ocorrência de atos como simulação de manutenção em aeronaves.

Defesa da Voepass e medidas institucionais

Em nota oficial, a Voepass sustenta que sempre priorizou a segurança operacional e que cumpriu todas as normas exigidas pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) desde que iniciou suas operações. A companhia destaca possuir a certificação IOSA da Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) desde 2012 e afirma que mantém treinamentos rigorosos para seus pilotos, bem como controles de manutenção certificados. A Voepass ainda informa que colabora integralmente com as autoridades desde o início das investigações e se compromete a exercer seu direito de defesa no processo.

Próximos passos e expectativas

Com a finalização do relatório da Polícia Federal, o Ministério Público Federal analisará as medidas cabíveis, podendo haver novas denúncias e abertura do processo criminal. As famílias prometem continuar mobilizadas para garantir responsabilização dos culpados. Especialistas em direito e aviação ressaltam que o andamento do caso pode influenciar práticas regulatórias e de segurança no setor aéreo brasileiro.

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