O governo brasileiro anunciou, nesta terça-feira, 4 de setembro, a redução de sua presença diplomática na Argentina. Essa medida, inédita nas relações entre os dois países, surge em resposta a declarações ofensivas proferidas pelo presidente argentino Javier Milei contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Em entrevista ao programa argentino "Modo Fontevecchia", o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, esclareceu que a decisão foi motivada por "insultos e agressões" repetidas de Milei. "As condições que provocaram essa decisão foram os reiterados atos, insultos e agressões ao Brasil, às instituições do governo brasileiro, ao Executivo brasileiro, ao chefe do Executivo, e também ao Judiciário", afirmou Vieira.
Desde o último domingo, Milei fez declarações chamando Lula de "ladrão" em diversas ocasiões. O presidente argentino já havia utilizado o mesmo termo em julho, durante uma convenção partidária do senador Flávio Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. Além disso, Milei também qualificou Lula como "corrupto". Na mesma ocasião, ele atacou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, chamando-o de "lixo". Isso ocorreu após Moraes ter negado um pedido de Milei para visitar Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar.
A situação gerou reações dentro da política argentina. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, chegou a classificar Milei de "palhaço" enquanto criticava a situação econômica da Argentina. O embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli, foi convocado de volta ao Brasil em julho, logo após os primeiros insultos de Milei a Lula. Desde então, a representação dos interesses brasileiros na Argentina tem sido feita por um encarregado de negócios, cargo de menor hierarquia diplomática.
O ministro-conselheiro Eduardo Uziel, número dois da embaixada, assumirá a representação brasileira até que a situação se normalize. O Itamaraty declarou que Bitelli não retornará ao posto enquanto Milei continuar a fazer comentários agressivos contra o presidente brasileiro. Com isso, as relações entre os dois países estão em um estado diplomático conhecido como "chargé d'affaires", onde um diplomata de menor graduações gerencia as relações, sem a presença de um embaixador formal.
Além disso, na mesma data, o embaixador argentino em Brasília, Daniel Raimondi, foi liberado para retornar à Argentina. Até o momento, Lula não se manifestou publicamente sobre as declarações de Milei, embora tenha ironizado a situação ao perguntar "quem é esse cara". A relação entre os dois líderes tem se mostrado tensa desde a posse de Milei em dezembro de 2023.
Este episódio também ecoa as crescentes tensões diplomáticas entre Brasília e Washington. Milei é um aliado próximo do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cuja administração tem adotado posturas críticas ao governo Lula. Em um desdobramento recente, o Departamento de Estado americano revogou o visto do embaixador brasileiro em Washington, em resposta à negativa do Brasil em conceder vistos a diplomatas americanos que pretendiam visitar o país antes das eleições.
Lula foi oficializado, no último domingo, como candidato à reeleição durante a convenção do PT, onde discursou sobre possíveis interferências estrangeiras no processo eleitoral brasileiro. O vice-presidente Geraldo Alckmin, que repetirá a chapa com Lula, também se manifestou, ironizando as críticas externas e afirmando que o sistema eletrônico de votação do Brasil "é tão eficiente que não aceita votos de argentinos nem de americanos".
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