Uma nova onda de ataques às vacinas, capitaneada por políticos de direita como Nikolas Ferreira e Eduardo Bolsonaro, intensificou o debate sobre imunização nas redes sociais brasileiras. No entanto, segundo levantamento realizado pela plataforma de monitoramento digital Torabit, o efeito foi um aumento significativo nas manifestações favoráveis às vacinas durante o período analisado, entre 3 e 10 de agosto.

A análise, que examinou 93.755 publicações únicas com o termo "vacina" nas plataformas X (antigo Twitter), Facebook, Instagram e Bluesky, constatou que 54,4% tinham caráter pró-vacina, enquanto 28,3% eram antivacina. Entre as postagens com posicionamento definido, 65,8% defenderam a imunização.

Contexto: Surto de sarampo e movimentação política

O período do estudo foi marcado não apenas por manifestações políticas, mas também por um surto de sarampo em São Paulo, que concentrou 23 dos 24 casos contabilizados no país. Esse cenário contribuiu para ampliar a discussão sobre imunização. Em paralelo, nos Estados Unidos, a audiência do imunologista Anthony Fauci no Senado, aliada a discussões sobre a recomendação de vacinas infantis pelo governo Trump, também ecoou no debate brasileiro.

A ofensiva antivacina ganhou destaque inicial após depoimento de Fauci e um vídeo de Nikolas Ferreira, que retomou alegações negativas sobre a pandemia. Logo depois, o tema voltou à tona com um vídeo do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, no qual ele defendia que os pais devem ter liberdade para decidir sobre a vacinação de seus filhos, usando o modelo texano como referência.

Oscilações e padrões nas redes sociais

A reação da opinião pública foi dinâmica. No primeiro dia do levantamento, havia equivalência: 41,2% pró-vacina e 41,1% contra. Nos dias seguintes, prevaleceu o apoio à vacinação, chegando a 66,9% das menções no terceiro dia, em oposição a 16% antivacina. O impacto das manifestações antivacina durou em média 48 horas antes de ser revertido pelo crescimento de conteúdos favoráveis, principalmente a partir dos debates em torno do surto de sarampo e com o reforço da campanha nacional de multivacinação.

Os vídeos de Nikolas Ferreira e Eduardo Bolsonaro tiveram alcances diferentes. No caso de Nikolas, 87,9% das menções associadas foram favoráveis às vacinas. O impacto, porém, foi breve, perdendo força em menos de dois dias. Já as publicações impulsionadas por Eduardo Bolsonaro representaram 6,4% das menções, sendo 60,9% pró-vacina e 31,6% contrárias.

Perfil das manifestações e tom dos debates

A análise destaca diferenças de perfil entre públicos femininos e masculinos: 67% das manifestações de mulheres com posição definida foram pró-vacina, enquanto entre os homens esse índice foi de 56%. Já as menções ao surto de sarampo, que representaram 10,6% do total, tiveram 72,7% de mensagens apoiando a imunização.

É importante observar que, embora 42,3% das menções tenham demonstrado tom negativo, 62% desse segmento eram, na verdade, favoráveis à vacinação — resultado de críticas dirigidas não às vacinas, mas a figuras políticas ou declarações contrárias à imunização.

Impacto e próximos passos

O padrão identificado pela Torabit indica que ofensivas digitais antivacina acabam por provocar, ainda que indiretamente, uma reação positiva da sociedade em defesa da imunização. O aumento no conteúdo pró-vacina após episódios polêmicos e surtos epidemiológicos sugere que o tema segue sendo amplamente debatido e monitorado no país.

Fique por dentro das atualizações sobre saúde pública e temas relevantes do Brasil em brasilnow.world