A entrada irregular de cubanos pelo Norte do Brasil via Amazônia tornou-se tema urgente para as autoridades. Em 2026, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) resgatou 225 migrantes em situação ilegal apenas na BR-401, acesso direto entre a Guiana e Boa Vista, Roraima. O número, que já superou de longe os anos anteriores, revela a intensificação dessa rota. Quadrilhas conhecidas como coiotes cobram até US$ 10 mil por pessoa para atravessar fronteiras e garantir hospedagem e transporte em território brasileiro.

Esquema de travessia clandestina e relatos das vítimas

O caminho começa com voos de Havana para Georgetown, seguido por um trajeto terrestre até o município de Bonfim, que faz fronteira com Lethem, na Guiana. Daí, migrantes seguem a pé, em barcos ou dentro de veículos alugados, frequentemente superlotados, em direção a Boa Vista. Os relatos apontam grandes dificuldades e exploração: veículos para cinco ocupantes levam até doze pessoas, favorecendo lucros elevados aos transportadores. Muitos desses motoristas são brasileiros sem histórico criminal prévio, mas há registros de envolvidos com contrabando e tráfico.

A tentativa de escapar da fiscalização expõe vítimas a perigos adicionais. Motoristas chegam a abandonar grupos em estradas de terra e já ocorreram acidentes fatais durante fugas da polícia. Em 2025, dois cubanos morreram em um capotamento enquanto tentavam fugir de uma abordagem.

Operações policiais e combate às quadrilhas

As investigações da polícia têm resultado em prisões e desarticulação de redes. Desde o início do ano, 16 coiotes foram presos, e operações recentes encontraram casas de apoio para migrantes em Roraima, onde foram resgatados grupos em condições precárias. Só no último dia 8, a PRF encontrou 108 cubanos em situação degradante, incluindo adultos, idosos e crianças sem alimentação adequada há dias. Cinco brasileiros suspeitos de atuar como coiotes foram detidos em flagrante.

As vítimas, após o resgate, são encaminhadas aos abrigos da Operação Acolhida, já utilizados anteriormente para acolher venezuelanos, recebendo atendimento humanitário inicial.

Contexto da crise migratória e resposta oficial

A pressão migratória cubana é agravada pela crise econômica e energética em Cuba, resultado de sanções internacionais e apagões, afetando o abastecimento e serviços básicos. Beatriz, uma migrante resgatada, relata o desespero de buscar oportunidades melhores no Brasil, com objetivo de, futuramente, reunir a família.

De acordo com o Ministério da Justiça e Segurança Pública, em 2025 foram feitas quase 42 mil solicitações de refúgio por cubanos, praticamente o dobro do ano anterior. Em 2026, já são mais de 13 mil pedidos. O governo monitora a situação e mantém protocolos de atuação conjunta para combater o tráfico de pessoas e acolher migrantes em situação de vulnerabilidade.

A proximidade geográfica, facilidade de voos e vulnerabilidades nas fronteiras entre Cuba, Guiana, Suriname e Brasil explicam a popularização desses trajetos. Uma vez no Brasil, os migrantes muitas vezes conseguem seguir viagem para outras regiões do país utilizando documentação original.

Cooperação internacional e desafios futuros

As ações das autoridades brasileiras têm contado com colaboração da Guiana. O governo guianense reafirma a importância de proteger a fronteira comum e reprimir atividades criminosas, visando desmantelar as redes de contrabando de pessoas. Para especialistas, como o pesquisador João Jarochinski, o Brasil ainda se destaca como país que possibilita regularização migratória, mesmo frente à crescente restrição internacional à mobilidade.

O monitoramento, investigação policial e atuação intergovernamental seguem como desafios centrais. O aumento do fluxo migratório exige respostas coordenadas para a proteção tanto dos migrantes quanto das fronteiras brasileiras.

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