Wesley e Joesley Batista construíram um império bilionário a partir de um pequeno açougue em Anápolis, Goiás, enfrentaram o epicentro da Operação Lava Jato e, mesmo marcados por alguns dos maiores escândalos de corrupção do Brasil, conseguiram retomar sua influência no cenário global, à frente da maior produtora de carne do mundo, a JBS.

Origens e crescimento da JBS

A história da família Batista se confunde com as transformações econômicas do Brasil. Em 1953, José Batista Sobrinho abriu o primeiro açougue, que evoluiu para o frigorífico Friboi, diante de um Brasil em rápido desenvolvimento. O negócio prosperou graças à modernização incentivada pelo governo, à transferência de pecuária para o Centro-Oeste e ao programa de apoio do BNDES, que financiou a expansão e internacionalização da empresa.

Wesley e Joesley, ainda jovens, abandonaram a escola para assumir a administração dos negócios da família. Ao longo das décadas de 1990 e 2000, lideraram uma série de aquisições estratégicas, incluindo a compra da Swift & Co. nos Estados Unidos, transformando a Friboi, já rebatizada de JBS, numa gigante global presente em quatro continentes.

Lava Jato: escândalos e queda temporária

O crescimento acelerado foi impulsionado por aportes bilionários do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), mas nem tudo era transparente. A Operação Lava Jato revelou um amplo esquema de pagamentos de propina a políticos e servidores em troca de contratos e liberações de crédito. Wesley e Joesley se tornaram formalmente investigados em 2016, firmando delação premiada em 2017 e confessando crimes que, segundo eles, viabilizaram o crescimento empresarial. O acordo garantiu imunidade judicial pessoal, embora a JBS tenha recebido a maior multa já vista: US$ 3,2 bilhões.

Um erro estratégico de um advogado, que enviou ao Ministério Público Federal a gravação errada, expôs inconsistências na colaboração dos irmãos. Eles acabaram presos preventivamente por suspeita de insider trading e manipulação de mercado. Mesmo afastados da empresa, a JBS seguiu crescendo, impulsionada por demandas externas, principalmente da China, e por sua robustez operacional.

Reconquista do mercado e nova influência

A partir de 2019, a fortuna dos Batista voltou a ocupar o topo das listas mundiais. A pandemia acelerou a relevância da empresa, com a Justiça autorizando o retorno dos irmãos à gestão. Em sequência, a JBS consolidou-se com receita superior a US$ 77 bilhões anuais, abrindo capital com sucesso na Bolsa de Nova York em 2025, após intensas negociações políticas internacionais — inclusive com a contribuição milionária da Pilgrim's Pride para o comitê de posse de Donald Trump.

Contudo, a volta por cima não afastou novas controvérsias. A JBS enfrentou denúncias de trabalho infantil nos EUA, de envolvimento com desmatamento ilegal na Amazônia e de não cumprir metas ambientais, enfrentando multas milionárias e processos judiciais em diferentes países. A empresa afirma conduzir investigações internas e adotar medidas corretivas, mas as sucessivas denúncias demonstram os desafios éticos e regulatórios para multinacionais brasileiras.

Influência política e diplomática

Hoje, os irmãos não só recuperaram espaço nos negócios, mas também circulam entre líderes políticos nacionais e estrangeiros. Joesley Batista, por exemplo, foi apontado como articulador em negociações comerciais entre Brasil e EUA, influenciando até decisões tarifárias. Fotos ao lado de figuras como o presidente Lula e reuniões em Washington e Caracas demonstram que, para quem opera em alto nível global, o dinamismo do capital muitas vezes se sobrepõe à memória dos escândalos.

A história de Wesley e Joesley Batista contém lições incômodas sobre poder, economia e justiça no Brasil. Apesar dos altos e baixos, os irmãos personificam como grandes fortunas podem se reerguer mesmo após intensa exposição negativa — especialmente quando a saúde financeira de uma gigante global está em jogo.

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