Empresários argentinos intensificaram seu movimento de investimentos no Brasil em 2025, registrando 18 operações de aquisição ou aporte em empresas nacionais. A cifra representa quase o dobro das transações feitas por grupos brasileiros na Argentina no mesmo período, configurando uma inversão histórica na relação de negócios entre os dois países.

Contexto Econômico e Tendências

Historicamente, o fluxo de investimentos era majoritariamente do Brasil para a Argentina. Contudo, mudanças no cenário macroeconômico de ambos os países contribuíram para o novo panorama. No Brasil, a Selic elevada – atingindo 14% ao ano – e a inflação de 4,4% elevaram os juros reais a mais de 9%, encarecendo o crédito e pressionando empresas nacionais, muitas das quais passaram a buscar alternativas para honrar dívidas, inclusive colocando operações à venda ou entrando em recuperação judicial.

Na contramão, a Argentina viu avanços relativos no controle inflacionário, redução do déficit público e uma taxa básica de juros de 29%, abaixo da inflação de 33,8%, o que favorece empréstimos e investimentos por lá. Esse contexto proporcionou aos empresários argentinos acesso a crédito mais barato e com menos restrições, impulsionando as compras de ativos estratégicos no mercado brasileiro.

Principais Operações e Setores Impactados

Entre as movimentações mais expressivas registradas até junho de 2026 estão:

  • Aquisição do controle da Cellera Farma pelo laboratório Elea
  • Compra de ativos da Warren pela fintech Cocos Capital
  • Reestruturação da InterCement sob controle de Marcelo Mindlin
  • Compra da Usiminas pela Ternium por R$ 315,2 milhões
  • Aquisição do Laboratório Mundo Animal pela Biogénesis Bagó por US$ 24 milhões

Os setores farmacêutico e de infraestrutura estão entre os mais disputados, mas também há expansão em tecnologia e serviços financeiros. Empresários tradicionais como a família Mindlin são protagonistas, tanto na reestruturação de grandes grupos quanto em novas aquisições.

Motivações e Impacto Mercosul

Além do cenário econômico favorável, a proximidade cultural, a integração no Mercosul e o conhecimento prévio da regulamentação brasileira ajudam a mitigar riscos para os investidores argentinos. Segundo especialistas, o mercado nacional, com seus 213 milhões de habitantes, torna-se especialmente atraente para grupos que buscam escala e diversificação de portfolio.

Analistas apontam que, em 2025, houve um salto de 22% no número de empresas brasileiras pressionadas a vender operações ou buscar a recuperação judicial. "Os argentinos aproveitam o momento para expandir ativos no país vizinho, algo que, há uma década, seria improvável dada a histórica crise cambial argentina", destaca Matheus Jaconeli, analista da ZIIN.

Perspectivas e Próximos Passos

A tendência aponta para manutenção do interesse argentino enquanto o Brasil mantiver juros altos e instabilidade econômica. A entrada de capital estrangeiro pode fortalecer setores estratégicos, mas também intensifica a disputa por ativos e impacta concorrentes locais.

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